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Vindos dos fundos dos tempos... Por Mª Rosário Cristóvão

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Este é um espaço para as reflexões dos professores de Filosofia sobre os mais variados temas. 

 

Vindos dos fundos dos tempos, lá das profundezas dos Infernos …           

 

Não fosse eu professor e não saberia explicar o que me aconteceu. Numa noite cálida de inverno, assolado por uma terrível insónia. Ali estava eu de papo para o ar, de olhos arregalados e pregados no tecto do quarto, adivinhando os mínimos ruídos da casa, do prédio, da rua, do bairro, do fim do bairro, do fim do mundo … do limite extremo da galáxia …, quando uma claridade atravessou, instalou-se e disse no interior da minha mente:

 

- Purga-te de toda a tua maldição! O sacrifício da tua insónia é o começo da tua purificação. És professor! Maldito!

 

Silêncio. Fiquei perdido de medo. A aterradora claridade ofuscava-me a visão e ensurdecia-me a audição. Aquela espécie de luz tinha mais som que qualquer voz, mais força que qualquer outra coisa conhecida no mundo. De repente, disse novamente:

 

- És professor! Toda a miséria do mundo a ti se deve! Salva-te e salvarás o mundo! Abdica, maldito!

 

E desapareceu! Fez-se novamente escuridão no interior da minha mente. Sentia a cama a abanar, qual tremor de coração em exercício! Nunca na minha vida tinha visto, sentido ou ouvido qualquer coisa minimamente parecido com aquilo. Mas a violência da minha insónia não me deixava dúvida – eu não estava a dormir, não tinha sonhado!

 

Racionalista convicto, vasculhei toda a história do saber, da filosofia, da física, da química, da matemática, e de todas as ciências afins. Reli mentalmente todos os compêndios eruditos. Nada me explicava o sucedido. Seria um delírio esquizofrénico? Mas uma pessoa sempre tem o seu orgulho, e não é por uma coisa destas que se dá logo como maluco! Continuei. Dada a insuficiência das teorias racionalistas, decidi abrir caminho para outro lado, já menos conhecido por mim, mas sempre seria de tentar – a superstição. Alma do outro mundo? Mas não tinha visto alma alguma (como seria uma alma, que cor teria? Teria cheiro?)!

 

Estava quase a desistir, quando decidi voltar à minha convicta natureza racionalista e encalhei no meu bom companheiro de jornada, Descartes. Senti-me a enregelar! Paralisei por completo! Eu, humilde servo das ideias, humilde aprendiz do saber, tinha sido escolhido, sabe-se lá por que desígnios, para depositário de uma raríssima aparição de uma ideia clara e distinta. Era isso o que me tinha acabado de acontecer. Uma ideia clara e distinta tinha acabado de aterrar dentro da minha cabeça, tinha-me feito num oito, e depois disto, abalou sem pedir desculpa! Sempre há destas, entram, fazem o servicinho todo, vão-se embora e nem deixam um cartão para lhes telefonarmos mais tarde! Mas esta, eu tinha-a apanhado! Esbanjou para dentro de mim todo o charme da sua verdade e sumiu-se na escuridão! Isso já eu tinha topado, a convencida!

 

Mas aquilo da purificação, de eu ser professor, da maldição, dos males do mundo, é que eu não tinha percebido mesmo nada! Afinal, sempre me tinham dito que ser professor era um acto de amor, semelhante ao acto de curar um paciente ou ao curar de uma alma que se confessa arrependida dos seus pecados. Mas agora não estava a conseguir compreender! Mas uma coisa é certa, não há argumentação possível contra uma evidência, contra uma ideia clara e distinta!

 

Racionalista convicto, tinha de aceitar e dedicar todo o sacrifício da minha insónia à fundamentação de tal evidência! O mundo deu som de si – o vizinho de cima, que lava janelas e ganha mais do que eu, a contar pela frota estacionada à porta de casa, tem o horrível hábito de acordar com um despertador que mais parece o som dos travões dos autocarros. Olhei o relógio. Seis da matina. Senti-me intimamente privilegiado, pois naquele dia, só teria de entrar para as aulas das onze e trinta. Mais umas horas de reflexão!

 

O som do meu despertador era nitidamente diferente do som do meu vizinho de cima. Eu tinha gravado uma área de Mozart. Questionei-me se aquele sujeito saberia quem era Mozart. Comecei a sentir o início de um interminável complexo de culpa. Era o início da minha purificação! Fora eu e todos os outros professores, das gerações antes da minha e toda a minha geração, que não tendo divulgado a música de Mozart, permitíamos agora que alguém acordasse ouvindo os travões dos autocarros.

 

Passei para o andar em frente da minha porta. Aquele sujeito de bigode fininho e que cumprimentava a vizinhança a olhar para o tapete da entrada, sovava a mulher quase sempre nos dias ímpares do mês, sem antes não se esquecer de a avisar para chorar baixinho. Fora eu e todos os outros professores, das gerações antes da minha e toda a minha geração, que não tendo conseguido explicar o que é o respeito e o amor à humanidade, tínhamos deixado que aquele baixote fosse maior nos dias de luta.

 

Ainda havia mais andares naquele prédio! E estava a gostar de os visitar! No último andar, havia uma loira espampanante, que não se coibia de se encostar bem a mim, entalados no elevador, roçando tudo o que havia para roçar, em hora de ponta, ora de manhã, ora ao fim do dia. Fora eu e todos os outros professores, das gerações antes da minha e toda a minha geração, que não tendo conseguido explicar o que é a beleza, tínhamos deixado que alguém confundisse encanto com vulgaridade.

 

No rés-do-chão, vivia quem se gabava de dizer que era generoso, não se lembrando, no entanto, de olhar para as suas mãos, de imediatamente fiadas nos bolsos, sinal de quem esconde alguma coisa, alguma coisa que afinal não quer dar. Fora eu e todos os outros professores, das gerações antes da minha e toda a minha geração, que não tendo conseguido explicar o que é a generosidade, tínhamos deixado que alguém confundisse generosidade com mentira.

 

No segundo andar, vivia a intelectual erudita, devoradora de livros e coleccionadora de frases e de ideias. Fora eu e todos os outros professores, das gerações antes da minha e toda a minha geração, que não tendo conseguido explicar o que é a aprendizagem e o amor ao saber, tínhamos deixado que alguém confundisse a aprendizagem com  diarreia mental.

 

No quarto andar vivia uma beata que coleccionava talões de desconto do supermercado e horários das missas, de verão e de inverno. Fora eu e todos os outros professores, das gerações antes da minha e toda a minha geração, que não tendo conseguido explicar o que é a santidade, tínhamos deixado que alguém confundisse a religiosidade com dependência.

 

Na cave, vivia o jovem rebelde, todo atarraxado em piercings e tatuagens, como se furando o corpo e decorando-o com desenhos psicadélicos, afirmasse um mundo novo. Fora eu e todos os outros professores, das gerações antes da minha e toda a minha geração, que não tendo conseguido explicar o que é a harmonia, tínhamos deixado que alguém confundisse identidade e ostentação.

 

No meu andar, mesmo ali naquela casa apenas habitada por mim, vivia um professor que só naquela noite de insónia, conseguiu ver, como uma ideia clara e distinta, aquilo que não vem contado em qualquer texto religioso. Afinal, a história do pecado original não estava totalmente contada. Eva seduziu Adão. Sim, já sabemos. O que não sabemos, é que isso foi uma prova de avaliação. Digamos, uma espécie de prova para dispensar da oral. É que por detrás de uma das árvores do paraíso, estava um professor escondido, que ensinando a sua fiel aluna, levou-a a encetar todos os pecados do mundo.

No meu andar, mesmo ali naquela casa apenas habitada por mim, vivia um professor que numa noite de insónia viu a razão da miséria

do mundo: batalhões de professores, clones desse professor original, escondido na árvore do paraíso, dedicam-se a enganar o mundo, e o mundo, tão ingénuo como Adão e Eva, aprende todos os pecados, e se afasta para sempre da virtude original!

 

Afinal, no paraíso, eram três.   

 

Maria do Rosário Cristóvão

Portimão, 17 de Março de 2008

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