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Dia da Filosofia 2008 - Afinal as ideias também sabem a sal, por Mª Rosário Cristóvão

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Afinal, as ideias também sabem bem a sal

 

Quando tinha dez anos, o meu pai ofereceu-me um barco. E logo no meu imaginário eu transformei-me na versão feminina do biólogo marinho Jacques Cousteau. O mundo estava à minha espera, o mundo marinho, submarino e terrestre. Com aquele pequeno barco, o mundo seria explorado, questionado e certamente inventado. Anos mais tarde, depois de umas pequenas viagens, que não iam mais longe do que o contorno da beira-mar das praias algarvias, fui gradualmente compreendendo essa minha primeira vontade de explorar o mundo, desde o fundo dos oceanos ao mais alto dos céus, tinha outra razão de ser. Afinal o mundo começava e acabava dentro da minha capacidade de olhar para ele e de o interrogar. Se essa capacidade era minha, a perplexidade de o questionar era esse mesmo mundo que mo permitia.

 

O barco foi ficando pequeno e inseguro para a aventura das minhas viagens. Foi ficando cada vez mais guardado na garagem, para recordação. Por outro lado, a espontaneidade das questões foi ganhando força, ritmo e sentido. De imediato deram forma a uma vocação, a uma procura decidida e consciente em procurar com quem aprender a pensar e a tecer possíveis compreensões ou assumidas dúvidas. A Filosofia sempre por mim foi compreendida como uma corajosa aventura, tão brava e destemida como as expedições de Cousteau por tantos oceanos. A aventura do pensamento assemelha-se a uma viagem com direito a tempestade e sem farol ao fundo. Arrisquei-me nessa aventura.

 

O risco da aventura do pensamento é o perigo da dúvida. Por isso, de todos os filósofos que fui conhecendo, lendo e estudando, e com os quais fui aprendendo a pensar, a abrir caminhos e a olhar com perspicácia para o mundo, volto sempre a Sócrates como aquele que afirmou, no espaço aberto e livre da praça pública, a força mestra da racionalidade: saber que ainda nada se sabe. A filosofia é uma aventura tão instável como o baloiçar de um barco em mar alto. Estamos quase.

 

Agora, gosto de ver o mundo. Gosto de ouvir as palavras dos outros e de pensar nelas, entreter-me com essas ideias como uma companhia que me enriquece, ou então de as combater como um inimigo. A Filosofia é essa praça pública onde o combate se define, e a racionalidade ganha aí a sua força original. Mas o segredo só alguns sabem: o barco – voltamos sempre à metáfora do barco, e isso recorda-me Platão, no Banquete, quando é dito que o belo é como um imenso mar… - , não acolhe inimigos, mas apenas parceiros de margens diferentes. A viagem da Filosofia é só uma, a aventura de transportar parceiros diferentes. Viajemos, então, sobre esse imenso mar e contemplemos essa beleza que é o mistério de quase sabermos.

 

 Afinal, as ideias sabem bem a sal …

 

Maria do Rosário Cristóvão

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