Vi dois sorrisos onde deveria haver apenas um
O Incha era, como o nome indica, o maior peneirento que vivia na nossa praceta. Mas aquilo era mais bazófia do que alguma coisa que se visse. Era daquelas pessoas que até da porcaria que fazem têm orgulho e hão-de achar que é melhor e mais aromática do que a dos outros. Quando se tratava de futebol, a bazófia do Incha até dava náuseas. Se a sua habilidade estivesse à altura das suas lérias, nada daquilo teria acontecido. Num fim de tarde em que estávamos num dos nossos joguinhos, o Incha fez um dos seus remates fabulosamente encenados, como se estivesse a ser filmado para um casting. A sua pose era perfeita, ma a execução do remate foi desastrosa. A pesada bola de couro, cheia de efeito, descreveu uma parábola soberba direitinha à janela da sala de jantar da D. Lurdes. Ficámos paralisados pelo terror da antecipação dos gritos ácidos da velha megera e, sobretudo, do consequente encontro do cinto do pai ou do chinelo da mãe com as nossas pernas. Nesse momento, o tempo congelou. O período entre cada batida do coração era como uma eternidade. Vi nitidamente, com insuportável lentidão, uma gota de suor deslizar pela bochecha até ao queixo do Xepa e ficar aí a balançar, cair e ficar como que presa no ar. As nossas bocas moviam-se sem som, como as de peixes moribundos; os movimentos dos nossos braços e pernas eram lentos como os de cadáveres dentro de água.
Foi nesse momento de pré-terror, antes de a balofa D. Lurdes assomar aos gritos, que vi uma outra mulher aproximando-se resolutamente. Era a única que caminhava num passo normal, quando o resto do mundo parecia estar emerso em melaço. E caminhava na minha direcção. Era uma senhora de meia-idade, com roupas passadas de moda e um bocado coçadas, o cabelo enrolado num carrapito preso por dois lápis mastigados e, marcando cada passada, os tacões grossos de dois sapatões pretos calçados por cima de uma peúgas turcas verdes. Parou à minha frente, fitando-me de forma inquisitiva. “E agora, o que é que pensas fazer?”, perguntou-me passado um momento. “O que é que achas que se deve fazer numa situação destas?”, perguntou-me de novo. “…Hã?!?” – foi a minha inteligente resposta. Depois, recuperei o sangue frio: “Hei! Não fui eu. A culpa não é minha. Quem chutou a bola foi o peneirento do Incha…”. “Tens mesmo a certeza de que não tens culpa?”, volveu ela, sempre a olhar-me no fundo dos olhos com o seu olhar fixo e inquietante. “És infantil!”, exclamou ela abanando a cabeça. Através dela, eu observava a janela partida da D. Lurdes. “Hã?!” – Fiquei a rogar-lhe pragas: claro que eu era infantil. É isso que se é quando se tem nove anos! ... Nisto, o Xepa sacudiu-me e foi como se despertasse. A mulher já não estava ali à minha frente. Fugimos rapidamente antes que os gritos da D. Lurdes nos alcançassem. Daí a momento, o Incha estava já a tentar descartar-se das responsabilidades para cima de nós. Eu não me contive e preguei-lhe umas bolachadas. Enquanto o obrigava a comer, pareceu-me ouvir a mesma voz de há pouco a dizer-me “É verdade que, por vezes, temos de usar a violência para impor princípios humanos. Será que este é um desses casos?”…
A mesma mulher tornou a aparecer-me sete anos mais tarde, durante uma visita de estudo ao Museu de Arte Antiga. Estava eu a olhar embasbacado para uma pintura antiga em que um Cristo de pulsos amarrados e rosto semi-coberto emerge do fundo negro (chama-se Ecce Homo) quando ouvi a sua voz: “É uma obra cheia de drama”, exclamou ela. “Será que conseguiríamos compreender o seu significado se não soubéssemos de antemão qual é a história que ela conta?” Reconheci-a de imediato. Voltou a acontecer aquilo que de início tinha ficado a pensar que fora um delírio: através dela conseguia ver a professora a arrebanhar os meus colegas e a guia do museu a explicar as obras. Ela sorriu para mim e disse-me “Sim, sou eu. O meu nome é Filomena Sofia”. “A senhora é transparente…” foi o que consegui dizer. “Ainda bem que reparaste. Mas repara que sou menos transparente do que pareço à primeira vista”. Dizendo isto, passou a sua mão pela frente dos meus olhos e vi como ela distorcia levemente a imagem das coisas por detrás. “Se eu não alterasse um pouco a imagem das coisas, serias incapaz de me ver. É lógico …Hoje vim ter contigo para te dar um conselho…” Nesse momento, a Ana atravessou o seu espectro e eu vi dois sorrisos onde deveria estar a ver um só. “Vem!”, disse-me a Ana… “O conselho é este: sê consequente! Para seres tu mesmo, as tuas acções têm de estar em sintonia com as tuas convicções”. Confesso que não entendi o que ela queria dizer com aquilo. “Gaita!”, praguejei mentalmente enquanto era ternamente espremido pelo abraço da minha Ana. Por sorte – ou para aumentar a minha inquietação – durante esse ano aprendi algumas teorias interessantes que me ajudaram a dar um significado compreensível àquelas aparições inesperadas. Uma dizia que eram projecções do meu inconsciente ou o resultado de algum neurónio avariado. Outra dizia que aquilo que eu via valia, do ponto de vista do conhecimento, como representações que eram interpretadas e organizadas pela minha mente. Fixe! ...excepto por me fazer recear estar a ficar doido.
No domingo seguinte, antes da missa, enquanto vestia a batina (por essa altura eu era acólito), desabafei com o Padre Mateus sobre aquela coisa das projecções mentais e das representações do mundo. O Padre era um tipo fixe, mas ainda assim era um padre: “Por detrás de todas as aparências e das mudanças do mundo há uma verdade que permanece; e tu sabes bem qual é ela. A voz que te fala é a da tua consciência cristã… Ou talvez seja Maria que te abençoa com a graça dos teus bons conselhos”, disse-me ele. “Mas o nome dela é Filomena Sofia…”, repliquei. “Seja como for, os conselhos que te dá são bons, mesmo que não os entendas. Por exemplo, esse de teres de ser coerente… ”. — Talvez o Padre Mateus não devesse ter falado de ânimo tão leve, porque o que sucedeu a seguir deixou a paróquia em alvoroço, com ele no centro das atenções. No momento da eucaristia em que ergueu o cálix dizendo “Este é o meu sangue” e levou a taça à boca, os seus olhos arregalaram-se, as bochechas incharam-se-lhe e uma nuvem de líquido pulverizado projectou-se-lhe da boca. Mas o que saiu foi sangue, não vinho. Todos ficaram de boca aberta. Assim que se apercebeu do sacrilégio que cometera, o Padre ficou aterrorizado. Alguns dos fiéis apenas viram o sacrilégio do sangue de Cristo derramado. A maior parte viu o milagre. No meio da confusão que se instalou na Igreja, apenas uma figura se mantinha serenamente sentada e sorridente: brincando com as contas do seu rosário lá estava a minha amiga – se é que assim lhe posso chamar – aquela que nunca me abandona, a D. Filomena Sofia, com os seus sapatões calçados sobre as suas peúgas turcas verdes.
Paulo Sousa, ESPAA







