A minha relação com a filosofia
No princípio era a Dúvida.
Não, bem sei que no iniciozinho era a Palavra, mas a Palavra não encerrava grandes problemas e por isso saltei á frente. Saltei e bati, com quanta força tinha saltado, nessa coisa espantosa que é a dúvida, que se multiplica, subdividindo-se noutras dúvidas como se de um pequeno ser se tratasse. Comigo foi assim.
Um dia, quando ainda mal dominava as palavras e esfolava os joelhos por não dominar também outras áreas de conhecimento empírico dei comigo a interrogar-me sobre coisas que ninguém parecia capaz de me responder. Seriam as quedas um castigo como me dizia a minha mãe? De onde vinha a dor? Porque razão deveria dar ouvidos aos adultos quando os via a fazer precisamente o que me diziam para não fazer? Porque é que a morte deixa as pessoas tristes se nos dizem que os que partiram foram para o céu e toda a gente quer ir para lá?...
Por esta altura estava completamente submersa em dúvidas e foi assim que, por ter pouco o que fazer, e não gostar da insegurança em que as dúvidas me lançavam, que comecei a perguntar desalmadamente, secando a paciência de quem me rodeava. Foi a fase da Procura e uma espécie de preparação, um estágio para o que viria a seguir: aprendi a ler e pouco tempo depois descobri que os livros tinham respostas para a grande maioria das questões que me colocava e para outras que nunca pensei fazer. Foi uma época de descobertas e a vida corria-me de feição. A dada altura achei que sabia imenso, coisas que os meus amigos nem desconfiavam e as dúvidas que surgiam iam obtendo respostas prontas, os livros, os pais, os professores e os amigos, actuavam como pensos rápidos que colocamos sobre rasgos que queremos esquecer que existem. A dúvida morreu, viva a sabedoria.
Fiz esta experiência de ignorância quando pensava ter encontrado a sabedoria. Ignorava que, uns bons séculos antes, um Sócrates qualquer havia dito ser um ignorante mas que ainda assim sabia coisas que os outros desconheciam. Cativou-me, a mim e aos meus 15 anos de experiência. A filosofia entrou na minha vida com a graciosidade de um comboio desgovernado e fez estragos no ego. Então eu não podia saber tudo? Havia perguntas que ninguém podia responder? Afinal há Homens de idade avançada que ainda guardam mais questões do que respostas? E eu, como fico nisto tudo? Parecia uma tragédia grega e era precisamente de gregos que se tratava…Fiquei temporariamente céptica e perdida.
Quando nos perdemos devemos voltar atrás, para reencontrarmos o caminho e foi isso que fiz. Inverti a marcha, voltei ao início. À dúvida? Sim, mas também à Palavra. Às vezes é preciso reaprender tudo e é nas palavras que tudo começa. Deslumbrei-me com o poder das palavras, com o rigor e a precisão matemática com que podem explicar o mundo mas fiz muito mais que isso. Viciei-me na dúvida, não nas perguntas inconsequentes mas nas consequências de cada resposta, e não busquei tratamento. É importante perceber que este percurso foi feito num modo semi-alucinado de quem vê o mundo através de um caleidoscópio e tenta perceber qual é exactamente a imagem real. A dada altura resolvi que iria ser uma “duvidadora” profissional e mergulhei na filosofia, convicta de que ser filósofo seria uma profissão. No final, percorri todas as cadeiras de um curso, já não para ter uma profissão, mas para aprender a conseguir defender as minhas opiniões, fundamentando-as e arranjando argumentos para defendê-las, sem unhas e sem dentes mas com a razão. Hoje, mais do que uma profissão tenho uma atitude. Hoje sou eu quem guia o comboio, aquele que um dia pensei que ia desgovernado e quando consigo “atropelar” alguém, fico feliz. Provavelmente um dia conseguirá guiar o seu.
Paula Barradas







