“Ninguém sabe o suficiente para ser intolerante “
Popper
Nestes tempos que vivemos, prenhes de incertezas e grávidos de esperanças, a afirmação popperiana ecoa com vigor nos nossos espíritos e “força-nos” a uma inescapável tomada de posição.
A “agenda” da filosofia comportou desde sempre esta dupla valência, qual Juno tornado humano entre os humanos – o par siamês reflexão e acção.
Passados que são alguns decénios sobre o “ tempo e o modo” do encontro com a filosofia, ela continua a exigir, hoje como ontem, uma permanente atenção e um renovado olhar, quer no que ao pensar diz respeito quer sobretudo na adequação e articulação do pensado ao agir quotidiano.
A atmosfera de iniciação e aquisição da “odisseia” filosófica com os seus multi-conectados problemas e argumentos servidos por multifacetados protagonistas deu lugar a uma sempre reiniciada “viagem” de transmissão, ensino e aprendizagem a cada ano que passa - com novos rostos, novos contextos, novas vontades – para fazer passar hoje, a mensagem do “ moscardo” da Atenas do século V a.C.
Para o conseguir, a exemplo de Sócrates (o tal moscardo...), exige-se um reconhecimento do pouco... muito pouco que se sabe ... que carrega consigo o dever inalienável de não poder ser intolerante, seja no pensar seja no agir.
O inalienável dever (... de não intolerância) e a inescapável exigência de tomada de posição coerente com ele, permanecem sendo os limites da convivência individual e colectiva com o pensar e agir filosóficos.
Quando se assiste, de forma declarada por vezes, mas tantas e tantas vezes de forma implícita, ao cultuar da intolerância, nos muitos espaços e templos públicos de hoje, escondido sob as mais plurais e distintas formas, a filosofia “exige” uma reflexão ponderada e sustentada e um combate empenhado na detecção das raízes profundas dessa intolerância e no seu desmascarar, esteja onde estiver, seja onde for.
O encontro com a filosofia vem mostrando assim que não há lugar para a indiferença, para o lavar de mãos como Pilatos, para a recusa do “ olhar “ à nossa volta, para a intolerância, para a desresponsabilização dos actos. É um encontro exigente, desafiante, crítico... mas ao qual é difícil dizer Não...
É necessário, no entanto... descobrir a filosofia e o seu incessante questionar por entre as teias que a monotonia quotidiana tece ... para que o encantamento do rebanho, do pensamento único, da acção única, do fim predeterminado, da felicidade pré-escolhida , do amanhã traçado por outros ... não se torne dominante e senhor das mentes e dos actos.
Este é o grande desafio, passado que é um quarto de século sobre o primeiro encontro com a filosofia...
Hojy-ia Henda
LG







