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Dia da Filosofia 2008 - Eu e a filosofia, por Lázaro Fernandes

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EU E A FILOSOFIA  

 

Nasci na província, naquela sobre a qual se costuma dizer, para lá do Marão mandam os que lá estão; longe dos grandes centros urbanos e culturais, onde o silêncio das pedras e a dureza da vida moldam as pessoas, ensinando-lhes que a vida é dura. Sendo de um meio rural onde as pessoas pouco se preocupam com a instrução e a cultura, mas com os trabalhos do campo, não era fácil e normal, sair daquele meio antes de ir cumprir o serviço militar. Eu experimentei bastante cedo essa dureza e por isso, ao terminar a escola primária, quando me colocaram a questão, se queria estudar mais, não hesitei, pois era a maneira de poder fugir àquela vida dura.

 

Com dez anos saí da aldeia e fui estudar, para longe da família e dos amigos, coisa que não era tão habitual e normal como nos dias de hoje, ainda não se tinha dado a democratização do ensino. Eram poucos os que continuavam a estudar depois da escola primária. Eu tive essa sorte e fui para um colégio interno dos Salesianos, onde recebi muita da formação que tenho e que dificilmente teria adquirido se não tivesse passado por esses colégios.

 

Os anos foram passando e os estudos avançando até que um dia achei que aquilo não era o que eu queria fazer e como tinha completado os dois anos de Filosofia, propedêuticos do curso de Teologia, achei por bem continuar a fazer a licenciatura em Filosofia, para não deitar fora aqueles dois anos.

 

Nos dias de hoje sou professor de Filosofia, mas confesso que nem sempre tive esse sonho e também não foi um sonho de criança que me trouxe até aqui, como por vezes acontece com certas pessoas.

 

Ao longo dos anos de estudante e depois como professor houve filósofos que me marcaram, nomeadamente Sócrates, o da Grécia antiga.  

 

Sócrates foi uma figura carismática, por isso seguiam-no muitos jovens atenienses e enigmática ao mesmo tempo, pois não deixou nada escrito, mas influenciou a filosofia posterior, através das suas conversas na praça pública, onde criticava o amor das riquezas e das honras e o desprezo da virtude. O que me marcou sobretudo foi a atitude perante a condenação, que transparece na Apologia de Sócrates e a arte do diálogo. Ele é mestre na arte de filosofar, pois em vez de ensinar coisas, ele próprio parecia querer aprender com o seu interlocutor. Hoje os alunos habituam-se a aprender e quando iniciam a filosofia também querem aprender filosofia, como se houvesse uma filosofia. Mas isso é impossível, os jovens devem aprender a filosofar e Sócrates pode ser um bom mestre.

 

A pedagogia socrática começa com o colocar de questões. Alegava, humildemente nada saber, no entanto, no decorrer do diálogo, levava frequentemente os adversários a reconhecer os pontos fracos das suas reflexões. Ao fingir a ignorância, obrigava os seus oponentes a usarem a razão, a retirar qualquer coisa de si. É sobretudo esta arte do diálogo, a “maiêutica”, por meio da qual levava os discípulos a descobrir as verdades que pretendia incutir-lhes, que sempre o admirei e me parece uma forma excelente de filosofar e aprender a filosofar.

 

Lázaro Fernandes

 

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