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Dia da Filosofia 2008 - A demanda da autenticidade, por António Júnior

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A DEMANDA PELA AUTENTICIDADE COMO A PRIMEIRA DAS TAREFAS FILOSÓFICAS

 

 

Caro (a) leitor (a)

 

Se alguma vez se debruçou sobre a natureza da filosofia, provavelmente terá colocado perguntas do género:

 

- Em que consiste a filosofia? Será possível, atendendo à diversidade de respostas, defini-la satisfatoriamente? E se, porventura, não se desanimou ao ponto de desistir dessa difícil demanda, é porque talvez tenha compreendido um dos aspectos mais decisivos desta disciplina, a saber, o seu tom vincadamente argumentativo. De facto, o que perpassa em cada definição que encontramos é esse denominador comum que se traduz não apenas nos mais variados pontos de vista trilhados pelos filósofos, como também na qualidade e diversidade dos argumentos apresentados. Contudo, se a filosofia é, por um lado, constitutivamente argumentativa, independentemente da natureza da temática em discussão; por outro lado, o seu ponto de partida foi, é e será sempre singular. É o sujeito e a sua especificidade situacional que determinam, numa primeira instância, o conteúdo e a forma de fazer filosofia, razão pela qual a mesma se redefine a todo instante.

 

Sinceramente, já não me recordo se foi a filosofia que veio ao meu encontro ou se fui eu que encontrei a filosofia. Julgo que isso não é relevante e que a verdade estará algures a meio caminho, até porque o que é importante diagnosticar é o que me fascinou nesse encontro. Lembro-me que esse contacto se fez na adolescência, por via do conceito existencialista de “desorientação”.

 

O conceito de desorientação, tematizado por filósofos como Heidegger, Pascal e Kierkegaard, não somente demarcou o âmbito das experiências por mim vividas e que escapavam à minha compreensão, como se traduziu, em virtude da sua especificidade existencial, numa interpelação das bases fundacionais da minha vida. Estar desorientado significava estar “diluído” e “distraído” com a diversidade das experiências sensíveis, mas simultaneamente viver uma espécie de alienação face a ausência de um elemento aglutinador que desse um sentido indelével e duradouro à existência.

 

A problemática da fragilidade do sentido da existência que a experiência de desorientação me revelou, trouxe consigo – numa fase posterior – a constatação de que a busca do sentido é, inevitavelmente, a busca da autenticidade. Entenda-se, da autenticidade que resulta do compromisso do sujeito em enfrentar, em vez de fugir, aquilo que não compreende; em captar e suportar os elementos contraditórios que estruturam a sua identidade, não sob a forma de negação e exclusão de um ou outro elemento, mas sob a forma de inclusão e síntese dos mesmos na pessoa que a cada instante somos.

 

Tal foi, para mim, o modo como a filosofia se me apresentou na adolescência e, desde então, sempre entendi como requisito principal para qualquer investigação filosófica a necessidade de, primeiro, nos encontrarmos, à maneira do célebre aforismo socrático “Conhece-te a ti mesmo”. Na verdade, só através do confronto e do encontro de cada um consigo próprio - apenas possível se estivermos situados e orientados, isto é, comprometidos com acções e movimentos concretos que cada um executa no interior do devir da sua própria existência – é que a filosofia se pode constituir como fiel depositária e tradutora das perplexidades e das inquietações humanas.

 

António Júnior

 

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