“Vê quem foste na tua vida anterior” – assunto de um e-mail que recebi, reenviado por uma amiga e colega, enquanto me preparava para escrever algo a propósito da minha relação com a filosofia.
Abro o e-mail, e sigo alguns passos simples para saber a resposta: coloco a data e local de nascimento, Dezembro de 1963, Lisboa; o sexo, feminino, e a sentença surge de imediato, providencialmente talhada para o momento: fui um homem, pensador e filósofo que viveu no séc. XI. A minha relação com a filosofia é portanto de longa data, o que me dá agora mais autoridade para falar sobre o assunto…
Por volta dos meus catorze anos (“da vida actual”), sentia-me seduzida pela crença na reencarnação e lia tudo o que encontrava sobre qualquer tema cuja profundidade e esoterismo me afastassem do pragmatismo que caracterizava a minha família. Nos intervalos da leitura de Allan Kardec ou da Madame Blavatsky, fazia meditação ao som dos “Camel”e imaginava o futuro próximo em que o tempo desperdiçado a cozinhar e a comer fosse diminuído por administração em cápsulas dos nutrientes adequados. Passava horas a defender o fascínio pelas minhas crenças espíritas contra as convicções dos meus melhores amigos, incrédulos sobre os assuntos da alma e ateus.
Foi por essa altura que tive de fazer a minha primeira escolha em matéria de área de estudos a seguir no curso secundário. As leituras de Verão sobre os mistérios de Tutankhamon levaram-me a pensar que gostaria de ser arqueóloga, o que me fez optar pela área de humanidades para seguir História, deixando a minha disciplina preferida, que era Matemática.
Dois anos depois, comecei a pensar que descobrir e tentar perceber as ideias dos filósofos seria com certeza mais fácil e interessante do que escavar outras relíquias empoeiradas. Seduzia-me sobretudo a tal “atitude filosófica” de que falavam os professores, a predisposição para o questionamento crítico das nossas mais fortes convicções, até porque nessa altura, para mim, elas tinham começado a desaparecer, chegando a ser completamente tomada pelo “Génio Maligno”: O que é que existe? Como é que se sabe? Porque hei-de fazer isso? As melhores questões e nenhuma resposta conclusiva parecia-me ser a essência da filosofia, mas isso agradava-me, não sei bem porquê. Também me seduzia, por muito estranho que isso hoje me pareça, a ideia da sua inutilidade, que à semelhança da música, em nada contribuiria para a resolução dos problemas da sobrevivência humana, apesar da sua empolgante inevitabilidade.
O primeiro livro que comprei com a minha mesada, na feira do livro em Lisboa, foi “A Minha Concepção do Mundo” porque tinha um nome na capa: Bertand Russell. Sobre ele só sabia que era de um matemático e filósofo, uma respeitada figura a nível mundial, com muitas obras publicadas e conhecido pelo dom de apresentar problemas difíceis de uma maneira compreensível.
Lembro-me de descer a Avenida da Liberdade com ele e de o ter lido com muito interesse. Ainda o tenho. É uma edição de 1970, que reúne treze diálogos do filósofo na sequência de entrevistas gravadas pela BBC e conduzidas por Woodrow Wyatt.
Não sei como terei lido então este livro, mas o facto de apresentar a opinião informada e inteligente do seu autor sobre questões relacionadas com religião, a guerra e o pacifismo, ou a felicidade, numa linguagem clara e acessível, reforçou com certeza o meu interesse pelos meandros da filosofia.
Com dezassete anos, só me interessava pelo que queria aprender e não pelo que iria fazer na vida. Também por isso, e acabando por frustrar o sonho da minha mãe de que eu me formasse em obstetrícia, para poder retribuir à humanidade o que este conhecimento fez por ela e por mim, já que tornou viável o seu grande desejo, o do meu nascimento, e passando ao lado dos conselhos do meu pai para cursar economia e conseguir uma profissão bem remunerada, a minha primeira opção para a entrada na faculdade foi filosofia.
Durante os anos em que fui aluna do curso de licenciatura de filosofia aprendi que o trabalho filosófico é árduo e que o desacordo entre os filósofos se dignifica pelo uso honesto da inteligência e pelo vigor do pensamento perante os problemas mais complexos. Lamentavelmente a formação consistia sobretudo em assimilar teorias filosóficas e em apresentá-las fielmente, nos respectivos estilos (geralmente literários), nas frequências. Perigo a evitar com os alunos do secundário.
O treino argumentativo foi débil e muito do que de melhor se fazia em filosofia só vim a conhecê-lo muito mais tarde, já como professora de filosofia.
Voltando ao e-mail. Apesar da facilidade com que poderemos descredibilizar o programa de software que faculta estes dados, o facto é que algumas pessoas trabalharam durante horas para o tornar acessível a centenas ou milhares de outras pessoas que pelas mais diversas razões o fazem rapidamente circular sem que o assunto seja para todos eles, no mínimo, anedótico. Na era das novas tecnologias, em que até um líder político europeu faz processar os autores dos bonecos que o retratam trespassado pela energia malévola de agulhas vudu, os humanos, seres surpreendentemente inteligentes, emotivos e passionais, ainda vivem os mistérios da alma e do mundo alimentando-se de histórias, sem qualquer fundamento sério, que ganham força de verdade (mitos urbanos).
A ciência não encontrou qualquer região do cérebro onde se encontre alojado o “eu”, embora daí não decorra que uma tal entidade, uma identidade irredutível ao funcionamento das redes neuronais, não exista. Ora, o terreno onde se desenvolve o trabalho filosófico é precisamente este, o da discussão racional, conceptual e abstracta, sobre problemas que não podem (pelo menos até agora) ser resolvidos por provas experimentais.
A crença na alma (e suas derivadas, a da imortalidade e transmigração) é uma solução para um problema relativamente ao qual mantenho um vivo interesse: o de saber o que é a mente (humana), e qual a sua relação com o corpo.
A questão de saber o que é o Eu, esse algo que se apreende como uma identidade, dada a possibilidade da continuidade temporal dos estados mentais (eu, aquela que ontem adormeceu e que ao fim de algumas horas acordou sendo ainda a mesma, eu, a mesma miúda que vejo na fotografia e que me representa com 7 anos na minha bicicleta verde, ainda com apêndice e sem qualquer cabelo branco) tem ainda relevância pela relação com a questão do livre arbítrio e da responsabilidade da pessoa humana, (afinal não será desse meu “eu” a culpa de ter decidido não ser obstetra?) e com o problema da consciência moral (que garantias tenho de que os princípios morais que regulam a minha acção não se percam com uma simples lesão cerebral?)
Serei eu a mente que pensa, sente e deseja graças a uma substância física, um cérebro, mas cujos pensamentos, sensações e desejos constituem uma entidade radicalmente diferente dele, algo a que posso então chamar alma? - (posso imaginar o melhor neurologista a apontar as áreas cerebrais que se activam quando tomo este café mas nunca lhe será possível conhecer o sabor que eu sinto quando o tomo). Ou serei um corpo, temporalmente finito, que precisa de um cérebro que sente deseja e pensa de um certo modo para poder relacionar-se com o mundo e existir como um eu? (quanto dessa substância ou funcionalidade que é o meu cérebro neste corpo é necessária para que eu continue a ser eu no futuro, plasmando-me novamente num filósofo do século XXIX?).
Para o problema da relação mente-corpo, (tal como para outros problemas de filosofia política ou da ética prática) apesar do contributo do trabalho exaustivo e intelectualmente honesto de muitas das melhores inteligências humanas, ao longo do tempo, continuamos a ter posições filosóficas diferentes que rivalizam pelo rigor e pela sedutora genialidade dos seus argumentos. Mas conhecê-las é uma das maiores vantagens que uma relação próxima com a filosofia nos pode dar, é uma valiosa ferramenta para resistirmos melhor ao facilitismo da credulidade passiva.
Para quem faz do ensino da filosofia profissão, levar os outros a reconhecerem o valor de submetermos as nossas crenças à inspecção obrigatória das razões que as sustentam é um desafio prioritário, exigente e sempre estimulante. Russell respondeu ao entrevistador quando este o interrogou acerca da finalidade da filosofia, algo que mostra, com muita clareza, um ponto de vista relativamente consensual sobre o assunto: (1) manter aceso o espírito especulativo acerca de problemas que ainda não foi possível dominar pelo estudo científico; (2) tornar possível a demonstração de que há coisas que pensávamos saber e não sabemos, conservando-nos assim humildemente conscientes de que muitas coisas que parecem factos assentes, não o são.
Eu, vivente, no século XXI, convertida à condição de pensadora independente que desfruta do gosto dos problemas filosóficos em sintonia com os prazeres sensoriais, massa orgânica reflexiva, rendo-me à evidência de que a humildade é desejável à razão na condição de a usarmos muito e o melhor possível. Até ao próximo e-mail…
Ana Bernardes







