O ESPICAÇAR DE CONSCIÊNCIAS
“Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.”
António Aleixo
Quem sou eu? Deus existe? Qual o sentido da existência? São questões que certamente já assaltaram o nosso espírito.
Da criança ao idoso todos já filosofámos. Atrevo-me a afirmar ao jeito de George Orwell que espírito filosófico todos temos, embora uns mais do que outros. É a este tipo de filosofia que chamamos filosofia espontânea.
A Filosofia altera a vida, a visão do Mundo e das coisas, espicaça-nos a rever as nossas ideias e a questioná-las. Mas será que todos estão interessados em remodelar o seu sistema de crenças e os seus hábitos de vida? Será que não interessará a alguns que uma população não pense por si própria, que seja incapaz de reflectir sobre todo o processo social em que se insere e encontrar caminhos alternativos aos vigentes para construir novas formas de vida?
A Filosofia alimenta os espíritos insatisfeitos, ávidos de mudança. Estes acolhem com satisfação a inquietude e o desconforto que o pensar gera.
Não obstante, a Filosofia poderá constituir uma ameaça para os que beneficiam com a estrutura política vigente, poderá incomodar aqueles que são prisioneiros das suas crenças, aqueles a quem a mudança causa desconforto e medo.
O mito da Alegoria da Caverna descrito na República de Platão transmite-nos o Homem como um ser aprisionado ao fundo de uma caverna escura. O que o aprisiona? As paixões e os desejos que fazem parte do mundo sensível e que cegam o Homem, impedindo-o de ver a verdadeira realidade. Este mundo só permite a visibilidade da aparência. O Homem só se liberta quando vê luz no fundo da caverna e é tentado a penetrar para além dessa luz. No início, essa luz ofusca, cega, mas, à medida que os olhos se vão adaptando, o Homem consegue viver em plenitude, consegue penetrar no verdadeiro mundo das ideias, do pensamento.
Quem pensa vê mais além, e a Filosofia pode ser uma forma de nos libertarmos dos preconceitos e regras sociais, tantas vezes inculcados no nosso espírito por uma cultura de culpa em que fomos criados.
Quem pensa acredita que a liberdade e a felicidade podem identificar-se.
Quem pensa encara a vida como uma multiplicidade de caminhos e pondera antes de escolher o rumo a dar à sua existência, mesmo que essa escolha seja acompanhada de angústia, como Sartre refere.
Quem pensa, optou por uma relação dialogante com o outro, por um modo de vida, onde a interrogação e o espírito crítico funcionam como pilares base.
Encaro a Filosofia como um modo de vida tecido no diálogo, na mudança, em que a interrogação é um ingrediente fundamental e, mais do que procurar respostas, a Filosofia ensina-nos a pensar sobre elas.
Apesar do pensamento provocar inquietude e desconforto, ele é uma arma fundamental com que actualmente podemos lutar num Mundo em que o Homem ainda não se encontrou a si próprio.
Amélia Flor







