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Richard RORTY |
RORTY E A METAFILOSOFIA
2. Os seus livros mais importantes são A Filosofia e o Espelho da Natureza (Dom Quixote, 1988), Consequências do Pragmatismo (Instituto Piaget, 1999), e Contingência, Ironia e Solidariedade (Editorial Presença, 1994). Mais recentemente publicou Achieving Our Country. Leftist Thought in Twentieth-Century America (Harvard University Press, 1999), Philosophy and Social Hope (Penguin Books, 1999) e What's the Use of Truth? (Columbia University Press, 2007). 3. Rorty é um pensador especialmente preocupado com a Metafilosofia, isto é, a investigação filosófica da natureza da própria filosofia, o que o torna um filósofo particularmente interessante para todas as pessoas que se interessem pela velha e tradicional questão "O que é a Filosofia?". De facto, ele escreve: " passei quarenta anos à procura de uma maneira coerente e convincente de formular as minhas preocupações acerca do problema de saber para que serve a filosofia, se é que serve para alguma coisa" (Philosophy and Social Hope, pg. 11). 4. Filosoficamente falando, a principal tese de Rorty é que se torna hoje necessária uma transformação radical da filosofia: de uma filosofia sistemática, concepção que ele critica, para uma filosofia edificante, cuja apologia ocupa boa parte da sua obra A filosofia e o espelho da natureza. O primeiro modelo de filosofia - sistemática - tentava encontrar uma verdade absoluta, fora da história, fora do sujeito e fora da linguagem, procurando constituir-se como uma disciplina fundacional do Saber (um "Tribunal da Razão", na expressão de Kant), capaz de atingir a essência da realidade. Mas tal filosofia, argumenta Rorty, é incapaz de atingir esse conhecimento absoluto da realidade, pelo que Rorty sustenta que a filosofia sistemática deve ser substituída por um novo paradigma de filosofia - a edificante - de matriz conversacional (e não tanto demonstrativa), irónica e contingente, já sem qualquer pretensão de atingir essa perspectiva absoluta que é o "ponto de vista de Deus" e alcançar a verdade eterna, o conhecimento absoluto.
5. O cepticismo metafilosófico de Rorty (parcial e não global, note-se, visto dizer respeito apenas à filosofia sistemática) baseia-se na tese de que toda a discussão filosófica desde Descartes se apoia na concepção da mente humana como um sistema de representação da realidade, isto é, da mente como um "espelho da natureza". Ora Rorty entende, por razões demasiado complexas para serem aqui apresentadas, que esta concepção da mente humana está já definitivamente superada. Este cepticismo metafilosófico de Rorty, e as suas dúvidas quanto à possibilidade de um progresso decisivo em filosofia, têm-no transformado num dos filósofos mais controversos da actualidade, em especial nos países onde a "filosofia analítica" é dominante (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália, Escandinávia, etc.).
6. O pragmatismo de Peirce, William James, e Dewey, a que Rorty faz constantemente referência, pode aqui ser entendido como uma fonte de inspiração para esta nova "filosofia edificante", destinada a substituir modestamente, na óptica de Rorty, as pretensões irrealizáveis da "filosofia sistemática". A nova missão da filosofia, redefinida a la Rorty, é a de relacionar e comparar os vários tipos de discursos que é possível produzir acerca da realidade, para "continuar a conversação" da humanidade em busca da sua própria auto-realização.
7. Ler Rorty é, creio eu, um prazer. Deixo-vos com uma curta passagem de Contingência, ironia e solidariedade (pgs. 17-18), onde Rorty tenta justamente caracterizar a atitude de quem defende este novo paradigma de filosofia edificante:" Uso o termo "ironista" para designar o tipo de pessoa que encara frontalmente a contingência das suas próprias crenças e dos seus desejos mais centrais - alguém suficientemente historicista e nominalista para ter abandonado a ideia de que essas crenças e desejos centrais estão relacionados com algo situado para além do tempo e do acaso. Os ironistas liberais são pessoas que incluem entre esses desejos infundáveis a sua esperança de que o sofrimento venha a diminuir e de que a humilhação causada a seres humanos por outros seres humanos possa terminar.Na minha utopia, a solidariedade humana seria vista não como um facto que haveria apenas que reconhecer uma vez removidos os "preconceitos" ou alcançadas profundezas até então ocultas, mas sim, como um objectivo a atingir. Um objectivo a atingir não pela investigação, mas sim pela imaginação, pela capacidade imaginativa de ver em pessoas estranhas companheiro de sofrimento. A solidariedade não é descoberta pela reflexão, mas sim criada. É criada com o aumento da nossa sensibilidade aos pormenores específicos da dor e da humilhação de outros tipos, não familiares, de pessoas".
Nota Final: escrito originariamente em Novembro de 2006, foi alterado o ponto 1 para dar conta do falecimento muito recente de Rorty. Também um curto excerto deste trabalho foi publicado no âmbito de uma recensão ao livro de Richard Rorty e Pascal Engel What's the Use of Truth? na Crítica, Revista Electrónica de Filosofia, 15 de Maio de 2007 (www.criticanarede.com)
Rui Daniel da Costa Cunha |








