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Diálogo Sobre a Dignidade Humana
Pico della Mirandola
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Cinco séculos depois da morte de Giovanni Pico della Mirandola (17 de Novembro de 1496) e cinco séculos também depois da redacção daquele que é considerado como um Manifesto do Espírito Renascentista (1486) vale a pena olhar para esta obra que já na época se constituiu como uma desafio para os seus contemporâneos e que neste dealbar do século XXI continua a ser uma interlocutor válido para a compreensão e defesa de um valor tão perene como é a DIGNIDADE HUMANA.
De seu nome original “Oratio”, mas mais conhecido com o título “De Hominis Dignitate” apresenta-se como um texto fundamental para a compreensão quer do pensamento de Pico della Mirandola, Conde de Concórdia quer do tempo anunciador das Luzes Europeias – o Renascimento.
É a introdução da Obra Maior “Conclusiones sive Thesses DCCCC” em que Pico jovem (com 24 anos) apresenta novecentas teses aos seus contemporâneos, em Roma, com a intenção de promover a discussão filosófica pública visando, com o contributo de filósofos de todas as tendências, uma aproximação da verdade disputada por tantas doutrinas e encontrar a concórdia entre todas elas.
O “De Hominis Dignitate” funciona autonomamente como um pretexto para, em nome da defesa do espírito crítico e daquilo que hoje chamaríamos com bastante propriedade, a liberdade de expressão, o Conde della Mirandola introduzir as traves mestras das “Conclusiones…” e que iluminam todo o seu pensamento: a defesa da dignidade humana e o combate pela paz filosófica.
A defesa da Dignidade Humana espelha fielmente o novo lugar ocupado pelo homem, com o Renascimento – um Antropocentrismo, acentuando o carácter nuclear da afirmação da Liberdade humana para traçar o perfil do homem aquele de quem se dirá que está condenado a escolher, está condenado à liberdade, ou, como diz Pico “Ó Homem, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. (…) Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido” (p. 51-53).
O combate pela Paz Filosófica (ou Concórdia) que leva Pico a procurar, no limite, o acordo entre todos os pensadores, mesmo dos que à partida mais se opõem, tem com ponto de partida a assumpção do filósofo mirandolês de que a verdade é imutável e universal e por tal, todas as doutrinas filosóficas constituem como uma aproximação à verdade, cada uma de seu jeito pode e deve contribuir para se conseguir a harmonia para lá das particularidades e singularidades de cada filosofia concreta, o que o levará a afirmar nomeadamente que “propus interessar-me seriamente por todos os mestres da filosofia, examinar todas as posições, conhecer todas as escolas, mas não jurar sobre a palavra de ninguém” (p.81), tendo no seu horizonte a rejeição de qualquer forma de intolerância e de dogmatismo.
Num tempo onde a luta pela afirmação da Dignidade Humana, sob as mais diferentes formas se vai tornando um imperativo inegociável e onde combate contra a intolerância se deseja que se assuma como o modus operandi no quotidiano dos homens, o convite para o diálogo com o “Discurso sobre a Dignidade Humana” de Pico della Mirandola pode ser o melhor companheiro dessa jornada.
Em dia de comemoração do Dia Internacional da Filosofia, termino este convite, com o que Pico diz da própria filosofia: “ Foi (a filosofia) que me ensinou a depender mais da minha consciência do que dos juízos dos outros; a estar sempre atento, não ao mal que de mim se diz, mas a não dizer ou a não fazer eu próprio o mal” (p.75).
Hojy - ia – Henda L. Gonçalves |








