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Dia da Filosofia 2007 - Protréptico, de Aristóteles. Por Alexandre Guerra (ESPAA)

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Protréptico

 

Aristóteles

 

 

 

 

Durante o século IV a.c. assiste-se a uma disputa entre duas concepções distintas sobre o que é, ou deverá ser, a filosofia. Por um lado, a escola retórica de Isócrates e por outro, a academia de Platão. A primeira defende princípios educativos opostos à segunda. Na primeira, preconiza-se a valorização da opinião; a desconfiança nos saberes teóricos (matemática e dialéctica); a valorização do estilo e elegância do discurso; e, curioso, defende-se a pouca exigência na admissão de candidatos à academia. Na última, defende-se o contrário: desprezo pela opinião; a valorização do conhecimento dos primeiros princípios e a valorização dos saberes teóricos sobre os demais saberes e, não menos importante, assume-se um elitismo declarado quanto ao acesso dos candidatos à academia. Por volta do ano 352 a.c., e praticamente em resposta às pretensões de Isócrates apresentadas na sua Antídosis, Aristóteles publica o seu convite à filosofia, o Protréptico.

 

O idealismo presente no Protréptico contrasta com o realismo de Isócrates. Este defende um modelo de educação consequencialista: tudo o que fazemos, fazemo-lo em função de um fim e é o fim que lhe confere o sentido. Ora, o fim da acção é uma vida virtuosa. O conhecimento da natureza é, segundo Isócrates, o conhecimento das coisas práticas e da virtude. Para o Aristóteles do Protréptico, a observação, a teorização e a especulação sobre assuntos filosóficos não têm valor pelo seu uso ou aplicação, mas têm valor intrínseco e em si mesmo. A finalidade do ser humano não está no conhecimento prático e Aristóteles entende por conhecimento da natureza, não o conhecimento da virtude, mas o conhecimento dos princípios da realidade. A argumentação do Protréptico é, portanto, uma argumentação finalista: o homem é a mais excelente criação da natureza e a natureza do homem é o conhecimento (teórico) dos princípios. É obvio que o conhecimento teórico dos princípios é o suporte da felicidade, mas esta não deverá ser procurada enquanto fim. A felicidade é somente uma consequência da realização do verdadeiro e único fim do homem e que é seu maior bem: a sabedoria.

 

O Protréptico coloca-nos perante o mesmo problema que encontramos nos textos pré-socráticos. Esta obra de Aristóteles perdeu-se na antiguidade e os textos que temos disponíveis do presumível Protéptico são apenas tentativas de reconstrução com base em testemunhos clássicos. Apesar dos vários testemunhos (Olimpiodorus; Cicero; Diogenes Laércio; etc.), é a partir do Protréptico de Iamblico (este filósofo neo-platónico escreveu uma obra sobre a filosofia pitagórica com o mesmo título da obra de Aristóteles) que todas as reconstruções do Protréptico de Aristóteles têm sido elaboradas. Este trabalho de reconstrução desta obra de Aristóteles levada acabo pelos especialistas é similar ao trabalho de H. Diels e W. Kranz no que se refere à reconstrução do património pré-socrático a partir da doxografia e só foi possível porque em 1869, o jovem académico de Oxford Ingram Bywater defendeu a tese de que Iamblico teria usado o Protréptico de Aristóteles na elaboração da sua obra. A fundamentação foi de tal modo consistente que todas as reconstruções partem deste princípio.

 

Como abordagem do Protréptico propomos a reconstrução de Ingemar Düring (Göteborg, 1961) na qual podemos encontrar a seguinte sequência de afirmações:

 

- Bens externos sem princípios morais e sabedoria são um mal. (B2-B5)

 

- Dois sentidos da palavra filosofia: inquirir se devemos filosofar ou não e dedicarmo-nos à especulação filosófica. Dá-se, assim, corpo ao clássico argumento acerca da necessidade da filosofia: Ou filosofamos ou não filosofamos./Se filosofamos, filosofamos./Se não filosofamos, filosofamos para demonstrá-lo. (B6)

 

- Segundo o propósito da natureza, a sabedoria é o supremo fim do homem. (B22- B24)

 

- A razão é a parte superior da alma [que é superior ao corpo] e esta tem a sua melhor expressão no puro pensamento e especulação. (B25-B30)

 

- Uma vida guiada pela filosofia não só é possível, como é o maior dos bens. (B32-45)-

 

A sabedoria é o maior dos bens, mesmo que seja desprovida de uso para a vida prática. (B38-B45)

 

- Não é possível viver uma vida humana sem a especulação filosófica (B41)

 

- O trabalho adequado de uma alma racional é o apego ao verdadeiro conhecimento da realidade. (B63-B65)

 

- Procuramos a verdade pela especulação filosófica, de modo a alcançar a sabedoria. (B66-B67)

 

- O bom carácter e o exercício da virtude, como genuíno e verdadeiro prazer, encontram-se sob a forma de sabedoria e especulação filosófica. (B93-B96).

 

Apesar do estilo publicitário do Protréptico, não podemos esquecer o seu valioso conteúdo. A ética, a estética e a filosofia política de Aristóteles estão presentes de forma simples e translúcida nesta obra de exortação à filosofia que surge nos dias que correm com a maior pertinência. 

 

Alexandre Guerra (ESPAA) 

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