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Dia da Filosofia 2007 - Ensaio Sobre o Homem, de Ernst Cassirer. Por Luizete Dias (ESPAA)

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Ensaio sobre o Homem

  

Ernst Cassirer

 

 

 

  

 

Kant surge-nos como o interlocutor privilegiado quando perguntamos ‘O que é o Homem?’ Basta relembrar a afirmação que o campo (feld) da filosofia é reconduzido às questões 1) O que posso saber? 2) O que devo fazer? 3) O que me é dado esperar? 4) O que é o Homem? surgindo esta última como a súmula de todas as anteriores.

 

O grande objectivo dos modernos, entre outros, foi a tentativa de fundamentar uma antropologia filosófica. Kant surge assim como uma referência, porque pretende estabelecer uma antropologia transcendental, isto é, uma antropologia que trata do homem, mas que não se fica apenas numa dimensão pragmática. Segue a necessidade de ser uma antropologia universal, uma antropologia que apresente as modalidades, daí transcendental, comuns a todos os homens.

 

Este projecto kantiano, com o redimensionamento do sujeito transcendental, pavimentou o caminho que mais tarde Sartre e Heidegger iriam percorrer, embora com uma direcção diferente. Em virtude de cada um deles ter retirado a antropologia da dimensão universalizante que Kant tinha estabelecido. A antropologia passou para a dimensão da singularidade do je ou do ex-sistanz. É a formulação que a existência precede a essência.

 

Cassirer, herdeiro de toda a tradição neo-kantiana de Marburg, rejeita a leitura antropológica feita por Heidegger. Esta crítica deu origem ao famoso Debate de Davos. Debate esse, onde Cassirer critica o texto heideggeriano A Carta sobre o Humanismo. Sem pretender aqui tecer considerações sobre o referido debate, importa estabelecer a posição de Cassirer perante a questão ‘O que é o Homem?’

 

Na sua obra de maturidade Ensaio sobre o Homem, já escrita nos Estados Unidos, no exílio, dois anos antes de morrer, Cassirer reflecte acerca da história da antropologia filosófica, desde a antiguidade clássica até aos nossos dias.

 

A resposta clássica, diz-nos, apresenta-nos o Homem como aquele que se interroga acerca de si mesmo. O Homem é aquele que tem consciência de si mesmo, resultado da sua razão. O enquadramento medieval, pela pena de Santo Agostinho, veio redimensionar a leitura do Homem, melhor dizendo, veio enfraquecer a razão humana que quando não assistida, pela revelação, se torna idólatra. É com a modernidade, com as revoluções da matemática e da física, que o Homem deixa de estar no Mundo Fechado para figurar num Universo Infinito. Com a introdução do novo instrumento de trabalho, o espírito científico, fica garantido a direcção recta para uma antropologia filosófica, livre dos erros e preconceitos de um sistema meramente antropocêntrico. Contudo, os desenvolvimentos da biologia, da psicologia e da história, sob orientação do espírito científico, que se seguiram, apresentaram-se ainda métodos insuficientes e pouco exaustivos.

 

Pelo que Cassirer empreende uma alternativa a todos os métodos utilizados para responder à questão ‘O que é o Homem?’. Não uma alternativa radical, mas uma alternativa que visa completar todas as outras. Para poder definir-se o Homem é necessário deixar de lado as definições substanciais e colocar a ênfase numa definição funcional. Pois, o que caracteriza o Homem, e como tal, o que o distingue dos animais, não é a sua natureza metafísica ou física, é sim, a sua obra. É pelo sistema das actividades humanas que se define e determina o círculo da ‘humanidade’.

 

Como estabelecia Kant, só temos acesso à subjectividade pelas objectivações, ou seja, pelo produto dessa mesma subjectividade. Assim sendo, só temos acesso ao Homem através das suas manifestações objectivas, através da cultura. Na cultura encontramos as várias representações simbólicas, passe o pleonasmo cassireriano, do sujeito que pretendemos conhecer. Portanto, a definição funcional do Homem é uma equivalência entre o Homem e o Simbólico.

 

Só se pode garantir uma verdadeira antropologia filosófica a partir do momento em que, em primeiro lugar, se reconhece que há uma constância em toda a humanidade – o ser simbólico -, por um lado, e, que, embora as manifestações culturais sejam contraditórias entre si, porque produzem resultados diferentes, são diferentes manifestações da edificação do homem na sua auto-libertação do homem perante o mundo natural. São criações simbólicas dinâmicas – pensemos na linguagem, no mito, na arte, na religião e na filosofia.

 

À filosofia cabe a tarefa de unificar estas diferentes manifestações e representações culturais. 

 

Luizete Dias (ESPAA) 

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