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Linguagens da Arte
Nelson Goodman
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Linguagens da Arte tornou-se, muito justamente, um dos clássicos da filosofia da arte do século XX. Não é exagero dizer-se que foi um dos dois ou três livros que deram origem à filosofia da arte contemporânea, conferindo a esta disciplina filosófica o rigor, a clareza e a sofisticação de outras áreas mais centrais da filosofia.
Trata-se de uma obra inteligente, em que o estilo desenvolto e espirituoso do autor pode dar a ideia de que se limita a improvisar e a reflectir um pouco ao sabor da pena. Contudo, à medida que se avança na leitura, não só nos damos conta que essa ideia é errada, mas que isso reflecte simplesmente o enorme conhecimento que Nelson Goodman tem das matérias tratadas – além de filósofo, Goodman foi um importante galerista e coleccionador de arte de todas as épocas e estilos, tendo colaborado com muitos artistas, plásticos, compositores e encenadores –, aliado a uma impressionante capacidade para descobrir subtilezas e articular ideias com rigor. O que não é de estranhar, pois estamos a falar de um dos mais brilhantes e originais filósofos do século XX, cujos contributos são patentes em disciplinas como a epistemologia, a filosofia da ciência, a lógica, a metafísica e a filosofia da linguagem.
Mas o que nos diz Goodman em Linguagens da Arte? Em termos muito gerais, apresenta-nos uma visão unificada das diferentes artes. A ideia central de Goodman é que as artes são modos de obtenção de conhecimento e que a estética, ou filosofia da arte, tem como finalidade explicar como se obtém esse conhecimento. A estética é, pois, um ramo da epistemologia, ou teoria do conhecimento. Assim, as obras de arte não se destinam a ser contempladas, fruídas ou adoradas, mas a proporcionar conhecimento das coisas. E compreender uma obra de arte não consiste em apreciá-la, nem em ter experiências estéticas acerca dela, nem em descobrir a sua beleza. Compreender uma obra de arte é interpretá-la correctamente, tal como se faz quando se interpreta uma frase, um mapa, uma afirmação moral, um sinal luminoso ou uma radiografia. As ciências não são melhores nem piores do que as artes no que respeita à aquisição de conhecimento. Artes e ciências têm exactamente a mesma finalidade e a sua eficácia é semelhante, apesar de disporem de recursos diferentes. Todas visam criar ou construir versões de mundos, isto é, formas de organizar as coisas. O conhecimento, considera Goodman, não é exclusivamente uma questão de crenças; a percepção, a detecção de padrões, o reconhecimento e a classificação são também actividades cognitivas. E estas actividades não só afectam as nossas crenças como são, em si, cognitivamente relevantes. Assim, as artes não têm um estatuto cognitivo periférico ou inferior ao que encontramos nas ciências. Esta é, em síntese, a perspectiva cognitivista da arte que Goodman procura sustentar ao longo deste livro. Mas, para mostrar que a arte tem valor cognitivo, Goodman tem de dizer como desempenham as obras de arte a sua função cognitiva. Dado que não há cognição sem referência, tem de mostrar como referem e o que referem as obras de arte — todos os tipos de obras de arte, da música à pintura, à arquitectura, à dança, ao teatro e à literatura. Essa é a tarefa de Goodman ao longo de quase todo o livro. Daí o título Linguagens da Arte, pois considera que as obras de arte referem porque são símbolos que fazem parte de sistemas simbólicos. Este é um clássico da filosofia e não apenas da filosofia da arte.
Aires Almeida |








