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Dia da Filosofia 2007 - Tipos de Mentes, de Daniel Dennett. Por Ana Bernardes

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Daniel Dennett, Tipos de Mentes

 

  

 

 

DANIEL C. DENNETT vive em Massachusetts, é professor universitário e director do Centro de Estudos Cognitivos na Universidade Tufts. Considerado um dos maiores filósofos da actualidade, é autor de muitas outras obras valiosas entre as quais A Ideia Perigosa de Darwin e A Liberdade Evolui, já publicadas pela Temas e Debates. 

 

De que é feita a mente?

 

Quais são os seres que têm mente?

 

Não são as mentes de alguns animais semelhantes às nossas, apesar de não falarem?

 

Qual é a propriedade intrínseca que confere ao cérebro humano a consciência?  

 

Estas são algumas das questões para as quais naturalmente todos gostaríamos de ter uma boa resposta. No entanto, para Dennett, estas são exemplos de más questões porque denunciam profundas confusões e pressupostos errados.

 

No prefácio a este livro, o autor apresenta-se como um filósofo, e como tal, melhor a fazer perguntas do que a responder-lhes, o que não considera de todo ofensivo nem para si nem para a filosofia, já que a capacidade de formular bem os problemas, de os avaliar criticamente, de romper com velhos hábitos e modos tradicionais de questionar, são um valioso contributo para o grande projecto humano de auto-compreensão e de compreensão do mundo.  

 

Tipos de Mentes é um livro onde apresenta com confiança as suas próprias perguntas como candidatas a boas questões, já que ao longo do tempo têm tido vantagem sobre outras formas rivais de questionar mas que levaram a auto contradições, a dilemas, ou a becos sem saída.

 

Ao longo desta obra encontramos o conjunto de pressupostos que dão unidade ao seu modo de questionar e que o configura num padrão estável e identificável: o evolucionismo, o funcionalismo e a perspectiva intencional.

 

Esta última é uma estratégia explicativa acerca da mente, concebida como um sistema que exibe qualquer espécie de intencionalidade, ora, um sistema é intencional se a sua competência é acerca de outra coisa qualquer, «uma fechadura e uma chave exibem a forma mais rudimentar de intencionalidade», ou «qualquer agente ao qual se atribuem crenças e desejos particulares, baseados na sua percepção da situação e nos seus objectivos ou necessidades». Exemplos de sistemas intencionais: termóstatos, macro moléculas auto reprodutoras, amebas, plantas, ratos, cães, pessoas e computadores que jogam xadrez. Adoptando esta perspectiva, o autor utiliza um método de exploração das semelhanças que tem como objectivo descobrir as diferenças e tentará mostrar que esta é uma estratégia chave para esclarecer os mistérios da mente – de todos os tipos de mentes – uma estratégia arriscada, derivada de uma outra, o funcionalismo: «O que faz uma coisa ser uma mente é aquilo que essa coisa é capaz de fazer, (processar informação, discriminar, transformar, controlar as tarefas que realiza) não aquilo de que é feita». Talvez até a solução para o problema da nossa intencionalidade se torne então mais fácil de resolver: «...o cérebro é um artefacto e tem a intencionalidade que tiverem as suas partes, a partir do papel que tiverem as suas partes no sistema mais lacto de que são parte, ou seja, das intenções da sua criadora – a Mãe Natureza – (ou processo de evolução por selecção natural).» A intencionalidade dos estados cerebrais é derivada da intencionalidade do sistema ou processos que os configuraram, e face a esta ideia estranha e inquietante, a crença numa intencionalidade intrínseca e metafisicamente original dos humanos, ou numa qualquer propriedade ou material não físico misterioso que confere à mente humana a consciência, pode ser uma mera ilusão. 

 

Mas o que torna então uma mente consciente? «Aquilo que torna uma mente poderosa – consciente – não é aquilo de que é feita, mas aquilo que ela consegue fazer. E não podemos distorcer a visão das coisas. Só nós reflectimos».

 

Também não podemos simplesmente pressupor que a mente dos seres que não falam é realmente como a nossa. A intencionalidade que nos permite falar, escrever, fazer estas perguntas é um produto tardio e complexo do processo evolutivo. Como o fazemos? A via evolucionista fornece os instrumentos que são pistas alternativas para esta investigação.

 

O autor tem o mérito de nos conduzir para as suas respostas a algumas das suas empolgantes questões com a elegância da sua clareza de exposição, tecida com dezenas de exemplos empíricos, seleccionados de entre as mais actuais experiências científicas nas áreas da biologia molecular, da etologia, da neuropsicologia e da robótica. 

 

As frequentes referências a outros filósofos como Wittgenstein, Searle, Nagel, Descartes ou Nietzsche, são usadas para clarificar as vantagens e os inconvenientes de modos diferenciados de formular os problemas filosóficos em análise e para ilustrar a sua própria posição relativamente a eles. 

 

Nem sempre é fácil seguir o autor no jogo da auto-refutação dos seus próprios argumentos até os encontrar de novo algumas páginas à frente numa versão melhorada e sem rivais à altura, mas esse é o melhor desafio para quem gosta de pensar. 

 

O leitor encontrará neste livro as bases para alimentar a sua reflexão sobre um tema difícil mas sempre estimulante, numa atitude crítica muito mais esclarecida. 

 

Ana Bernardes 

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