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Soren KIERKEGAARD
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KIERKEGAARD PARA UM BANQUETE
O meu contacto com a obra de S. Kierkegaard foi fugidio, e resumiu-se a uma leitura de O Banquete. Desde então já passaram mais de quinze anos e muitos pormenores esbateram-se. Não deixou, todavia, de ser uma leitura frutífera, em parte pelo que dizia, mas sobretudo pelo que não dizia...
O Banquete relata a história de um jantar filosófico organizado para discutir o que é o amor. É um relato que não se chega a saber se é real ou não (no contexto da obra). É descrito como um conjunto de ensaios manuscritos que chegaram às mãos de um encadernador que, descobrindo o seu valor, resolveu publicá-los.
Os convivas do banquete formam um conjunto de indivíduos misteriosos. Reúnem-se para aquele acontecimento extraordinário num lugar ermo: uma cabana perto de uma encruzilhada no meio dos bosques. Como em O Simpósio (ou O Banquete) de Platão, cada conviva discursa à vez, expondo as suas opiniões sobre o que é ou o que deve ser o amor. À medida que a noite avança, os discursos vão-se apurando, porventura aquecidos pelo álcool. Os homens abandonam-se e os deuses começam a falar cada vez mais alto e mais claro pelas suas bocas. Ao que parece, trata-se mesmo de vários deuses, porque as posições defendidas pelos diferentes convivas não estão de acordo.
Nós, o público, eventualmente poderemos identificar-nos com alguns dos discursos proferidos ou, pelo menos, com algumas das razões invocadas. Comparamo-las... Mas enquanto os nossos olhos de leitores correm sobre as folhas do livro, a noite cresce, amadurece e é ceifada pelo gume pálido da madrugada. As estrelas começam a apagar-se. O hálito tresandando a vinho confunde-se na mente com o nevoeiro.
No final do serão, depois de terem sido discutidas tantas ideias excelentes e de terem irrompido tantas dúvidas, os convivas anónimos separam-se sem chegarem a um consenso. Depois de se despedirem, a cabana é arrasada. Só nós, leitores atónitos, ficamos a olhar para os escombros, depois de todos os vestígios do banquete terem sido destruídos.
Confesso que levei alguns anos a meditar sobre o que Kierkegaard nos queria mostrar com um final tão inusitado. Expulsou-nos do calor ameno e dormente da cabana para o gelo cortante da madrugada, e depois fez desaparecer a porta que se fechou atrás de nós. Teria sido tudo um sonho? Os discursos proferidos naquela cabana eram assim tão maus? À nossa frente estendem-se os braços arenosos da encruzilhada, dos quais as marcas das rodas das carruagens foram cuidadosamente apagadas. Ali, ao romper da aurora, encontrámo-nos subitamente sozinhos e com menos roupa do que seria recomendável.
As semelhanças com O Banquete de Platão são óbvias. Mas maiores me parecem as semelhanças com o livro de Job: quando este vacila, os seus amigos abeiram-se dele para consolá-lo. Cada um deles procura compreender as motivações de Deus, que permitiu tal sofrimento a um homem justo. À medida que o livro avança, os argumentos são cada vez melhores, pensamos nós. Mas eis que Deus aparece e escarnece daquelas tentativas: por mais que se esforcem, nunca o compreenderão. E dizendo isto, vai-se embora, sem deixar pó no ar, nem pegadas no chão que traíssem o caminho que tomou.
Acordem homens, estais sozinhos! É aqui que começa a vossa jornada.
Afinal, o que nos ensinam textos misteriosos como estes? Para que servem, se não nos dão respostas concretas nem um consolo decente? Os que já estão familiarizados com a filosofia já conhecem a resposta: não poderiam ter sido escritos de outra maneira, porque os problemas para os quais querem chamar a nossa atenção não permitem respostas fáceis. No entanto, são problemas para os quais é urgente encontrarmos uma solução. Temos mesmo que falar sobre eles.
Textos como O Banquete de Kierkegaard são valiosos porque nos relembram que alguns dos assuntos que para nós têm mais importância têm que ser permanentemente discutidos e ressuscitados por cada nova geração. Se não nos dão respostas claras, pelo menos recordam-nos as respostas clássicas, abrem-nos portas e exortam-nos a pensar por nós mesmos. Expulsam-nos para fora da cabana e fecham a porta nas nossas costas. São honestos ao ponto de não quererem dar-nos o que ninguém nos poderia dar.
Paulo Sousa (E. S. António Aleixo) |








