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HANNAH ARENDT
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UMA MULHER CARISMÁTICA EM TEMPOS SOMBRIOS
Hannah Arendt, que nasceu na cidade alemã de Hannover em 1906, foi, sem dúvida, uma das mulheres mais carismáticas do século XX, à semelhança de outras personalidades femininas como Simone Weil, Virgínia Wolf e Simone Beauvoir. Tendo privado com alguns dos mais notáveis pensadores da sua época, a saber, Heidegger (de quem se tornou amante), Karl Jaspers, Hermann Broch, Walter Benjamin, Husserl e Adorno, morreu em 1975, com a idade de 69 anos.
Dotada de uma inteligência invulgar, Arendt viveu na encruzilhada sombria das duas guerras mundiais, e é precisamente nesse contexto tensional que se revelou como uma das mais notáveis “autoridades” do pensamento político contemporâneo.Numa época dilacerada pelos horrores perpetrados pelo nazismo, cujo universo intelectual era povoado maioritariamente por figuras masculinas, Hannah Arendt destacou-se pela sua feminilidade e origem judaica, ambas condições de adversidade no mundo de então. A seu propósito, Heidegger disse que ela “teria, certamente, seguido com êxito uma carreira académica, apesar de ser mulher”.
Na verdade, o seu estatuto de “mulher de excepção” assemelhava-se ao destino trágico dos “judeus de excepção”, definindo-se a si mesma como “mulher judia, mas não alemã”, em virtude quer do exílio a que fora remetida a partir de 1931, em Paris, quer do sofrimento causado pela morte de entes queridos, entre os quais se destaca o pensador Walter Benjamin.
Em meados de 1941, Arendt exila-se nos Estados Unidos onde passa a desempenhar um papel determinante, tanto no que se refere ao nascimento e independência do estado de Israel, como no auxílio à imigração de amigos para a Palestina e para os Estados Unidos. Em 1944, coordena o trabalho de pesquisa da Comissão para a Reconstrução da Cultura Judaica Europeia, concebida no âmbito do quadro dos trabalhos da Conferência sobre os Estudos Sociais Judaicos.
Em 1948, a atmosfera de liberdade que caracterizava os Estados Unidos e que ela tanto prezara e elogiara, deteriora-se devido às perseguições do Maccarthismo aos comunistas. Na sequência desse clima de suspeita, perseguição e denúncia e dos efeitos traumatizantes do nazismo, Arendt publica, em 1951, uma das suas obras mais emblemáticas As origens do Totalitarismo. Nela, a filósofa apresenta de forma clara e pertinente, o fenómeno do totalitarismo político, enquanto manifestação de um mal radical responsável pela dissolução social e moral das sociedades. Em ulteriores obras como A crise da Cultura, A condição do Homem Moderno e Ensaio sobre a Revolução, Arendt retoma o seu tom crítico acusando, quer a Sociedade Americana, quer o Marxismo, de serem os responsáveis pelo crescimento galopante das desigualdades sociais e económicas.
Em 1952, na sequência dos massacres levados a cabo pelo estado judaico contra o povo árabe, em Kybia, e das suas considerações sobre o processo Eichamann em Jerusalém, Arendt sofreu uma campanha de difamação por parte de certas esferas da cultura judaica. Contudo, em correspondência trocada com Jaspers afirma: “ teria, sem dúvida, feito exactamente o que fiz.” É precisamente esse espírito inquebrantável que fez de Hannah Arendt a primeira mulher a inaugurar, entre 1953 a 1958, o magistério feminino de Filosofia e Ciências Políticas nas universidades de Berkeley, Princeton e Columbia.
A sua feminilidade e condição judaica associadas a uma forte convicção interior e coerência ética, fizeram de Hannah Arendt um baluarte da liberdade de pensamento num dos tempos mais sombrios da história contemporânea.
Em entrevista televisiva, relativamente ao problema da emancipação da mulher, Arendt respondia da seguinte forma: “Sempre pensei que existiam determinadas actividades que não convinham às mulheres, que não lhes ficavam bem, por assim dizer. Dar ordens não fica bem a uma mulher e, por isso, ela deve esforçar-se por evitar tais situações se, entretanto, quiser conservar as suas qualidades femininas. Não sei se tenho razão ou não. Seja como for, pelo meu lado, mais ou menos inconscientemente, conformei-me com essa opinião. O problema em si, para mim, pessoalmente, não desempenhou qualquer papel. Na realidade, fiz simplesmente aquilo que tinha vontade de fazer.”
Nota: Entre as inúmeras obras da autora e não referidas no presente texto, destacam-se a sua tese de doutoramento em Filosofia, O Conceito de Amor segundo Santo Agostinho; Homens em Tempos Sombrios; Eichmann a Jerusalém. Rapport sur la Banalité du Mal; A Condição Humana.
António Júnior |








