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PETER SINGER
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Reflectir, questionar, problematizar (a vida, a humanidade, o nosso mundo). Por tradição têm sido estes os verbos eleitos para caracterizar a actividade dos filósofos. Também a banda desenhada o faz, e com humor. Filmes como Dogville, de Lars von Trier, ou A Cidade de Deus, de Fernando Meireles, são exemplos de boa arte que nos reorientam o olhar para a realidade que julgávamos já ter visto, induzem a perplexidade e estimulam o questionamento. No confronto com a maldade humana, a violência e a irracionalidade, o cineasta demora-nos no assombro diante do acontecido. A atitude filosófica é sobretudo o esforço de superação desse estado de perplexidade, a procura de solução e a exigente avaliação das possíveis respostas no confronto dos argumentos que as fundamentam. A Arte tem um extraordinário poder para nos fazer mudar de ideias, ou de vida, tal como a conversão religiosa, a Filosofia obriga-nos a explicar e a clarificar as nossas ideias e escolhas, não se compadece com o indizível.
Mas onde estão hoje os filósofos? Os que nos fazem pensar? Os que nos ensinam a argumentar? Os que nos movem a agir (melhor)?
Não têm tempo de antena nos noticiários nem apresentam concursos, mas podemos encontrar muitos deles, vivos e activos, a realizar um excelente trabalho.
Um deles é Peter Singer, para quem a sabedoria é «o produto da reflexão com alguma inteligência e consciência do que é importante na vida».
Talvez possa ser apresentado a partir das seguintes interrogações:
A ética é uma fraude? Singer não vê a ética como um sistema de regras que nos proíbe de fazer coisas, mas sim como uma base para pensarmos acerca do modo como havemos de viver. Não é catequista. A discussão racional, informada e fundamentada sobre os valores que orientam as escolhas a fazer e que definem o nosso modo de vida, é possível e indispensável. Estas são apenas algumas das questões sobre as quais Peter Singer nos pode ajudar a pensar com mais clareza e para as quais apresenta respostas fundamentadas, cujas razões podemos discutir e avaliar.
Os juízos morais baseiam-se em sentimentos subjectivos que não faz sentido discutir? Do seu ponto de vista não, em matéria de valores morais as diferentes posições não têm todas o mesmo valor. «Actualmente somos tão tolerantes relativamente a todos os pontos de vista possíveis que falar do lado certo é arriscar parecer hipócrita. Mas tolerar a opinião de outrem não é o mesmo que pensar que ela é tão válida como qualquer outra (...) em muitas questões houve um lado certo: na luta contra a escravatura, nas batalhas dos trabalhadores pelo limite de horas de trabalho e condições mínimas de trabalho, na campanha pelo sufrágio feminino tal como hoje continua a haver: a ajuda dos cidadãos mais pobres, a promoção da resolução pacífica de conflitos, a protecção do ambiente mundial (...)».
Somos por natureza seres egoístas? Não. Olhando sem ingenuidade para o que se passa no mundo é uma ideia difícil de sustentar mas ele fá-lo numa honesta esgrima de argumentos, avaliando as teorias de outros filósofos que marcaram a história e discutindo as mais actuais pesquisas da Biologia, da Genética e da Sociologia sobre a questão.
É possível conciliar uma vida ética com a felicidade? Esta questão pode evocar o velho paradoxo imoral: O meu desempenho do dever moral é bom para os outros mas não para mim. Se considerarmos apenas argumentos empíricos não conseguiremos refutá-lo completamente e no entanto temos de admitir que é razoável procurar a nossa própria felicidade. Então o esforço humano, para encontrar o ideal perfeito da conduta racional, está condenado desde o início ao fracasso. Aqui, Singer consegue apresentar razões para mostrar que esta conclusão é demasiado extrema e para fundamentar uma outra resposta, ainda que parcial, para este velho paradoxo: «Poderei apontar pessoas que escolheram levar uma vida ética e conseguiram ter impacto no mundo. Ao fazê-lo, investiram as suas vidas de um significado que muitas pessoas não crêem alguma vez conseguir alcançar. Como resultado, estas pessoas consideram que as suas vidas são mais ricas, mais satisfatórias, e até mais empolgantes do que eram antes de elas terem decidido dessa forma». Assim, segundo ele, encontrar um sentido para as nossas vidas é o melhor caminho para se ser feliz mas nem todos os propósitos se equivalem. O melhor propósito para dar sentido às nossas vidas, é viver uma vida ética.
Eis o argumento que do seu ponto de vista é o melhor mas também o mais controverso: «Quanto mais reflectirmos sobre a nossa dedicação a qualquer interesse sectorial – o prazer, o partido, o clube de futebol, a família, o auto-conhecimento, o culto religioso – menos utilidade veremos nele, em contraste, por muito que reflictamos, nunca veremos o compromisso com uma vida ética como trivial ou inútil».
Apresentar assim a solução para a nossa felicidade e justificar por que devemos ser éticos até parece uma brincadeira, mas se acompanharmos o desfiar da análise que este filósofo faz sobre o assunto chegamos a rir de muitas das nossas habituais convicções e escolhas porque nos obriga realmente a rever o valor dos propósitos pelos quais orientamos a nossa vida.
Finalmente, se, como defende, «viver eticamente é reflectir de uma forma particular sobre o modo como vivemos e tentar agir de acordo com essa reflexão», a vida de Peter Singer é um bom exemplo de como se pode viver eticamente? Pelo que é sabido esteve envolvido tanto como filósofo académico, como de formas mais quotidianas, numa variedade de causas éticas: ajuda aos países em vias de desenvolvimento, apoio a refugiados, legalização da eutanásia voluntária, problemas ambientais e denúncia de práticas de crueldade sobre animais. É vegano (para além de vegetariano não consome vestuário com pele de animais nem usa medicamentos ou cosméticos testados em animais) e doa 20% do seu salário à Oxfam e Unicef.
PETER SINGER nasceu em Melbourne (Austrália), em 1946, e estudou na Univ. de Oxford. É professor de Bioética na Univ. de Princeton. Em Portugal, tem já traduzidos os títulos: Ética Prática e Um só mundo (Filosofia Aberta), Libertação Animal (Via Óptima) e Como Havemos de Viver(Dinalivro).
Ana Bernardes |








